Poesia de Cordel

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Conhecendo a História de Lourival Batista Patriota ( Louro do Pajéu)


Lourival Batista Patriota, também chamado "Louro do Pajeú", passou para a história da Cantoria de Viola como o "rei do trocadilho". Era o mais velho da trinca de irmãos repentistas complementada por Dimas e pelo mestre Otacílio, recentemente falecido. Louro era uma surpresa para os que pensam que os cantadores nordestinos são talentos brutos, intocados pela cultura urbana.

Os Batista, como muitos grandes violeiros, tiveram variadas leituras e cuidadoso aprendizado. Não perderam as raízes sertanejas, mas fizeram versos em pé de igualdade com os dos poetas das cidades.

Louro nasceu em São José do Egito, sertão de Pernambuco, a 06 de janeiro de 1915. Concluiu o curso ginasial em 1933, no Recife, de onde saiu com a viola nas costas, para fazer cantorias. Foi um dos mais afamados poetas populares do Nordeste e, além da cantoria, a outra única atividade que exerceu foi a de banqueiro de jogo do bicho, mas sem sucesso.

Irmão de outros dois repentistas famosos (Dimas e Otacílio Batista) e genro do poeta Antônio Marinho (a "Águia do sertão"), foi um dos grandes parceiros do paraibano Pinto do Monteiro. Satírico e rápido no improviso, era temido por seus competidores.

Certa vez, em resposta a Canhotinho, companheiro de cantoria, que terminou sua estrofe dizendo: Já sinto o peso dos anos / querendo roubar-me a paz.

Louro pagou assim:Eu já não suporto mais
Do tempo tantas revoltas
Prazer, por que não me prendes?
Mágoa, por que não me soltas?
Presente, por que não foges?
Passado, por que não voltas?

Outro dia, louro duelava com o jovem cantador Adauto Ferreira, que terminou seus versos dizendo: Está fazendo 30 dias / Que estou cantando à toa.

Lourival respondeu:Sua vida inda está boa
A minha é que está ruim
Que você tá no começo,
Eu já tô perto do fim;
Tô perto de ficar longe
De quem tá perto de mim.

De outra feita, um repentista que com Louro participava de uma cantoria, terminou seus versos da seguinte maneira: "Sou igualmente ao Dragão / Do Rio Negro falado".

Louro respondeu:"Pra ser dragão tás errado
Mas Lourivá já te explica
Tira letra, apaga letra
Tira letra e metrifica
Tira o "d", apaga o "r"
Bota o "c" e vê como fica".

Louro morreu em São José do Egito, a 05 de dezembro de 1992. O poeta Dedé Monteiro lhe dedicou estes últimos versos:
Imitar seu estilo e rapidez,
dando ao verso o poder de ir e vir,

muito vate tentou sem conseguir,
pelo menos do jeito que ele fez.
Eram três os irmãos, mas desses três,
no repente, só um se eletrizou…
muita gente também trocadilhou,
mas ninguém com igual facilidade.
São José escurece outra metade,
que o repente de Louro iluminou.

Não morreu o valor da região,
mas morreu sua "jóia" predileta;
não morreu a lembrança do poeta,
mas morreu um herói da profissão;
não morreu a tristeza do sertão,
mas morreu quem tão bem o decantou;
não morreu a saudade que ficou,
mas morreu quem provoca essa saudade.
São José escurece outra metade,
que o repente de Louro iluminou.

Alguns livros que trazem poemas e textos sobre o poeta:Roteiro de Velho Cantadores e Poetas Populares do Sertão, de Luís Wilson, Centro de Estudos de História Municipal, Recife, 1986;
Antologia Didática de Poetas Pernambucanos, (organizadores: Cremilda Aquino de Matos, Ésio Rafael e Isabel Maria Martins da Silva), Governo de Pernambuco, Secretaria de Educação, 1988;
Um Certo Louro do Pajeú (Uma Reportagem), Alberto da Cunha Melo, EDUFRN – Editora da UFRN, Natal, 2001;
Lourival Batista Patriota, Ivo Mascena Veras, CEPE, Recife 2004;
Pernambuco, terra da poesia (organizada por Antônio Campos e Cláudia Cordeiro) – IMC/Escrituras, 2005.


 

Um comentário:

  1. Quem foi Lourival, quem foi?
    Foi veneno de urutú
    Um Batista Patriota
    Cantadô de sangue azú
    De fama progelitente
    Foi sem iguá no repente
    Reinando no Pajeú!

    O "Louro", onde chagava
    O povo se reunia
    O céu se alumiava
    O chão da terra tremia
    O oponente, coitado
    Se via desesperado
    Que pela calça "escorria"!

    A peleja começava
    E "Lorivá", de primeira
    Jogava o adversário
    Pra debeixo da poeira
    Dizia: "traz o caneco
    Porque bater em marreco
    Pra mim virô brincadeira!"

    Dois, três verso, ele cantava
    E a viola na mão
    Tal qual raro violino
    Em orquestra de alemão
    Parecia inté gaúcho
    Que pega com gosto, e luxo
    A cuia de ximarrão!

    E por ai vai...
    (Zé Roberto - S.Paulo)

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